
Várias rebeliões aconteceram, causadas pela exploração da mão-de-obra do sertanejo desalojado de suas terras pela seca e pelos grandes latifundiários, além de submetido a regimes de trabalho praticamente escravo. Essas rebeliões disseminaram-se pelo agreste, alimentadas pelo número cada vez maior de flagelados.
Movimentos populares como Canudos, Contestado, Caldeirão e tantos outros surgiram com maior foco de resistência e vigor no próprio nordeste. Foram símbolos da resistência ao poder centralizador dos donos de terras que, numa análise realista, eram e são verdadeiros senhores feudais.
Sem outras alternativas e sabendo que esse estado de coisas continuaria os grupos de rebeldes procuraram em si mesmos os meios para tentar mudanças, instigados pelo analfabetismo, pela fome, pela falta de futuro melhor, pelos anos sucessivos de seca, pelo descaso das autoridades e pela participação, muitas vezes infeliz, da Igreja Católica.
O sertão é, por natureza, adverso ao homem que ali tenta viver. O sertanejo nordestino e sua terra eram e continuam sendo um só todo. Tirar a terra do sertanejo é matá-lo. Tirar o sertanejo da terra é condená-lo a uma existência tão diferente do que lhe é próprio e natural que chega a ser irreal.
Existem meios técnicos e científicos para modificar o ambiente hostil em que vive o nordestino, para propiciar-lhe melhores meios de subsistência. Mas, aplicados esses métodos e mudadas as circunstâncias, provavelmente diminuiria ou acabaria a miséria, facilitando o ajustamento do homem à região de maneira mais confortável, o que parece não interessar aos que tiram proveito da situação vigente.
O flagelo das secas e a cegueira dos homens que dominam o poder continuam, ainda hoje, a provocar a alma do homem nordestino, deixando-o absurda e vergonhosamente entregue à própria sorte, vagando de canto a canto do sertão até ser despejado nos centros urbanos mais prósperos, tornando-se um marginal na verdadeira acepção do termo. Seres humanos que poderiam ser bem mais produtivos em seu próprio meio natural, além de participantes mais ativos da sociedade, são colocados à sua margem.
O fenômeno das secas continua o mesmo há quatrocentos
anos. O tratamento recebido pelo homem nordestino não se diferencia hoje, em quase nada, daquele existente por ocasião dos movimentos populares de rebelião contra os senhores feudais. Suas chances de sobrevivência não dependem apenas dele, mas também, e principalmente, do que lhe dão e do que lhe permitem ter.
Quando a morte passa a ser sua companhia diária o homem reage. Alguns se entregam ao desespero, à passividade e ao desalento. Outros, de índole mais agressiva, revoltam-se e pegam em armas. Os que não têm nada querem alguma coisa; os que têm pouco querem mais, muito mais, pois o coronel está séculos à sua frente.
A índole do nordestino é, normalmente, humilde, pacífica e cordata. É um sujeito bonachão, alegre e divertido, embora duro e rude em suas maneiras. Mas quando resolve dizer não, o nordestino vira leão e grita sua revolta na cara da minoria opressora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário